terça-feira, 4 de novembro de 2025

A ladeira de Maria Ortiz que subiu à glória; os cativos que ali caíram, viraram pó


 Questões a refletir, isto é, para quem quiser olhar e verificar os fatos sem medo de mudar de ideia.

 Por Estêvão Zizzi

 Alguém já ouviu, ainda que de passagem, estes nomes: Francisca Preta, João Mina, Manuel Angola, Catarina Crioula, Antônio Benguela, José Crioulo, Mariana Preta, entre outros? Esses nomes pertencem a pessoas de carne e osso, cujas existências constam em registros — catálogos do APEES, microfilmes da Biblioteca Nacional, FamilySearch e acervos eclesiásticos locais do Espírito Santo.

Mas quem foram essas pessoas e qual é o seu valor histórico para o Espírito Santo, que jamais receberam qualquer homenagem como verdadeiros heróis e que viraram poeira na tão famosa ladeira do Pelourinho, que leva o nome de Maria Ortiz?

A imensa maioria deles viveu, trabalhou e ergueu a cidade de Vitória, sustentando a vida colonial. Ergueram as paredes da primeira Igreja de Nossa Senhora da Vitória, subiram e desceram a Ladeira do Pelourinho carregando pedras e tijolos, plantaram o alimento que sustentava os soldados e cuidaram das crianças dos senhores, enquanto os próprios filhos eram vendidos.

Hoje, podemos afirmar com toda certeza que cada rua antiga de Vitória é, de certo modo, um túmulo invisível desses trabalhadores esquecidos.

O mais irônico é que os restos mortais da maioria dessas pessoas são, dia após dia, pisoteados pelos transeuntes no chão da Ladeira do Pelourinho — onde tantos foram punidos —, e onde não há sequer uma plaquinha em memória de suas vidas.

Por outro lado, há ali uma placa em homenagem à “heroína capixaba Maria Ortiz” e, mais recentemente, foi criado, no Centro, o mural “Marias do Centro”, em tributo a cinco Marias. Podemos, porém, afirmar que, de fato, quatro delas existiram. Mas a Maria das Marias, chamada Maria Ortiz, existiu?

Com todo o nosso respeito a escritores, historiadores, barões e afins, o nome de Maria Ortiz só surgiu quando o Jornal Correio de Vitória, em 1861 — leia-se: nunca mencionado antes desde a suposta proeza de 1625, quando teria afastado a invasão holandesa com um tacho de água fervente —, chamou a atenção das autoridades ao perguntar o nome da mulher do tacho.

Posteriormente a esse fato, surgiu, do nada, João Bernardes de Sousa, o Barão do Guandu, que trouxe à baila o nome de Maria Ortiz e sua suposta ascendência, mas alegou não possuir mais o documento. Disse tê-lo entregue ao Arquivo Nacional à época. Em pesquisa que fizemos junto ao arquivo, não encontramos qualquer registro — nem digitalizado, muito menos físico.

Enfim, podemos afirmar que não há nenhuma fonte primária que ateste esses dados. E, quanto às fontes secundárias, não passam de crônicas.

Além do exposto, consultamos a caderneta de Dom Pedro II, na qual ele registrava com detalhes tudo sobre suas viagens. A título de exemplo, quando esteve na Bahia, citou Maria Quitéria de Jesus, a heroína que lutou pela independência do estado.

Já quando veio, em 1860, ao Espírito Santo, não há uma linha sobre o nome ou o feito de Maria Ortiz. Por quê? A resposta é simples: nem a memória do povo guardava essa proeza, e muito menos as autoridades — se soubessem de seu nome — certamente teriam mencionado ao Imperador.

Conclusão: Quando repetimos o que nunca aconteceu, damos vida à mentira sob o nome de memória.

Enfim, legitimamente deveriam corrigir esse erro histórico e colocar uma placa em homenagem a Francisca Preta, João Mina, Manuel Angola, Catarina Crioula, Antônio Benguela, José Crioulo, Mariana Preta e outros que ali viveram. Ou, ainda, criar um mural com suas certidões de batismo, como forma legítima de dar os louros a quem realmente merece.

 

  


 

3 comentários: