sábado, 5 de setembro de 2026

A série Alucinação: Muito Delírio, Pouco Belchior


Alucinação parte de uma proposta ambiciosa: compreender Belchior para além do cantor, mostrando o seminarista, o estudante de Medicina, o compositor, o homem apaixonado e, sobretudo, o artista que decidiu desaparecer.
A série, porém, tropeça justamente naquilo que pretende combater: a transformação de uma vida complexa em uma interpretação conveniente.
A produção escolhe deliberadamente a ficção e as chamadas “liberdades poéticas”.
Isso permite encontros e situações que não necessariamente estão documentados. O problema é que, quando se trata de uma personalidade tão conhecida, a liberdade artística pode facilmente ser confundida pelo espectador com realidade.
A própria crítica especializada reconhece que a série prefere a atmosfera poética à “verdade” documental.
E aí está sua maior fragilidade.
Belchior era muito maior do que sua melancolia. A série parece excessivamente interessada no homem atormentado, ensimesmado, angustiado, perseguido pelos próprios fantasmas.
O resultado é um Belchior quase permanentemente triste — como se toda a sua existência pudesse ser explicada pelo sofrimento e pelo desejo de desaparecer.
Mas Belchior também era ironia, inteligência, provocação, humor, vaidade, ambição, contradição e, acima de tudo, um extraordinário construtor de linguagem.
Outro problema é estrutural. Ao alternar constantemente infância, juventude, consagração e decadência, a narrativa cria uma espécie de quebra-cabeça psicológico.
É interessante como experiência estética, mas nem sempre funciona como narrativa biográfica. O espectador pode sair com uma impressão de Belchior, mas não necessariamente com uma compreensão mais profunda de sua trajetória.
A ausência das próprias canções é ainda mais incômoda. Segundo a imprensa, entraves relacionados aos direitos das músicas impediram que elas ocupassem o lugar esperado na produção.
Isso é quase paradoxal: contar Belchior sem poder contar plenamente através de Belchior.
É como fazer um filme sobre Van Gogh sem mostrar seus quadros.
A série acerta, entretanto, ao não transformar o desaparecimento em simples espetáculo. O relacionamento com Edna e o período de dificuldades financeiras humanizam uma fase frequentemente tratada apenas como curiosidade.
A interpretação de Luiz Carlos Vasconcelos e Isabela Garcia também ajuda a sustentar essa dimensão mais íntima.
Mas há uma pergunta que permanece: a série realmente descobriu Belchior ou apenas inventou uma explicação poética para aquilo que não conseguiu explicar?
Talvez seja essa a grande contradição de Alucinação. Ao tentar mostrar o homem por trás do mito, ela acaba construindo outro mito: o do Belchior eternamente atormentado, solitário e destinado ao desaparecimento.
E Belchior merece mais do que isso.
Merece ser visto em sua complexidade — inclusive quando contradiz a imagem romântica do artista que simplesmente cansou da fama e resolveu desaparecer.
No fim, Alucinação é visualmente cuidadosa, tem boas interpretações e uma proposta intelectualmente interessante.
Mas é uma obra que interpreta Belchior mais do que o revela. É uma boa ficção sobre Belchior — e justamente por isso não deve ser confundida com a história de Belchior.
Finalmente, a verdadeira história de sua vida está em nosso livro, escrito por mim e por sua irmã e amiga, Ângela Belchior: “Belchior – Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.”


 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A verdade Nua - Luz del Fuego

Finalmente republicado, o livro A Verdade Nua de Luz del Fuego! Uma obra que, por décadas, foi censurada e perseguida pelo conservadorismo em nome dos “bons costumes”. Como bem disse Luz del Fuego: “Atire a primeira pedra quem nunca se perdeu na busca pela própria liberdade.”
Hoje, o leitor ficará boquiaberto com a inteligência de uma mulher à frente de seu tempo, que deu uma verdadeira aula de erudição e cuja mente brilhante ia muito além da imagem de dançarina com suas cobras. Até os mais rígidos moralistas foram obrigados a reconhecer que ela era uma mulher completa, complexa e corajosa, capaz de desafiar convenções e questionar os limites da sociedade.
Esta segunda e única edição republicada apresenta a obra completa, permitindo ao leitor conhecer a verdade integral de Luz del Fuego e seu pensamento inovador, que desafiou preconceitos e abriu caminho para o naturismo no Brasil. Uma mulher à frente de seu tempo que demonstrou que a sociedade, não apenas de sua época, mas até os dias de hoje, vive travestida de falso moralismo. Além disso, o livro corrige um erro histórico sobre a comemoração do Dia do Naturismo no Brasil, equivocadamente publicado em biografias, revistas, jornais e até em órgãos oficiais do Movimento Naturista.

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Domingas de Bronze


Não deixe de visitar a exposição de 7 a 27 de dezembro!
As vivências de Arte no CMEI Laurentina Mendonça Corrêa, integradas ao projeto “Vitória Viva: Preservando Nossas Raízes”, aproximaram as crianças da Educação Infantil da Arte Pública Capixaba presente em Vitória/ES. A proposta valorizou esculturas que compõem o patrimônio cultural da cidade, despertando nelas um olhar sensível para a história, a memória e a identidade capixaba.
O destaque do interesse infantil foi Dona Domingas, cuja figura inspirou desenhos autorais, experimentações com materiais recicláveis, produção de papel reciclado e a criação de uma grande escultura que fazia alusão à obra original. O trabalho utilizou papel e papelão, matérias-primas presentes no cotidiano da própria Dona Domingas. As crianças também refletiram sobre a ausência de identificação na escultura real e confeccionaram placas com pequenas caixas que seriam descartadas onde escreveram o nome Domingas.
A experiência incluiu ainda uma intervenção artística no muro externo da escola, na técnica do lambe-lambe, utilizando desenhos das crianças e fortalecendo o diálogo entre educação, cultura e cidade. Apesar de não visitarem a escultura em grupo, as famílias participaram levando as crianças ao local, gerando registros que enriqueceram o projeto.
A iniciativa alcançou também a comunidade artística. Ao conhecer o trabalho, o poeta capixaba Francisco José Leite escreveu o poema “Domingas de Bronze”, que deu nome à exposição final das crianças. Assim, as ações promoveram consciência ambiental, valorização da memória local e o reconhecimento da arte urbana como parte da vida e das histórias das crianças.