Alucinação parte de uma proposta ambiciosa: compreender Belchior para além do cantor, mostrando o seminarista, o estudante de Medicina, o compositor, o homem apaixonado e, sobretudo, o artista que decidiu desaparecer.
A série, porém, tropeça justamente naquilo que pretende combater: a transformação de uma vida complexa em uma interpretação conveniente.
A produção escolhe deliberadamente a ficção e as chamadas “liberdades poéticas”.
Isso permite encontros e situações que não necessariamente estão documentados. O problema é que, quando se trata de uma personalidade tão conhecida, a liberdade artística pode facilmente ser confundida pelo espectador com realidade.
A própria crítica especializada reconhece que a série prefere a atmosfera poética à “verdade” documental.
E aí está sua maior fragilidade.
Belchior era muito maior do que sua melancolia. A série parece excessivamente interessada no homem atormentado, ensimesmado, angustiado, perseguido pelos próprios fantasmas.
O resultado é um Belchior quase permanentemente triste — como se toda a sua existência pudesse ser explicada pelo sofrimento e pelo desejo de desaparecer.
Mas Belchior também era ironia, inteligência, provocação, humor, vaidade, ambição, contradição e, acima de tudo, um extraordinário construtor de linguagem.
Outro problema é estrutural. Ao alternar constantemente infância, juventude, consagração e decadência, a narrativa cria uma espécie de quebra-cabeça psicológico.
É interessante como experiência estética, mas nem sempre funciona como narrativa biográfica. O espectador pode sair com uma impressão de Belchior, mas não necessariamente com uma compreensão mais profunda de sua trajetória.
A ausência das próprias canções é ainda mais incômoda. Segundo a imprensa, entraves relacionados aos direitos das músicas impediram que elas ocupassem o lugar esperado na produção.
Isso é quase paradoxal: contar Belchior sem poder contar plenamente através de Belchior.
É como fazer um filme sobre Van Gogh sem mostrar seus quadros.
A série acerta, entretanto, ao não transformar o desaparecimento em simples espetáculo. O relacionamento com Edna e o período de dificuldades financeiras humanizam uma fase frequentemente tratada apenas como curiosidade.
A interpretação de Luiz Carlos Vasconcelos e Isabela Garcia também ajuda a sustentar essa dimensão mais íntima.
Mas há uma pergunta que permanece: a série realmente descobriu Belchior ou apenas inventou uma explicação poética para aquilo que não conseguiu explicar?
Talvez seja essa a grande contradição de Alucinação. Ao tentar mostrar o homem por trás do mito, ela acaba construindo outro mito: o do Belchior eternamente atormentado, solitário e destinado ao desaparecimento.
E Belchior merece mais do que isso.
Merece ser visto em sua complexidade — inclusive quando contradiz a imagem romântica do artista que simplesmente cansou da fama e resolveu desaparecer.
No fim, Alucinação é visualmente cuidadosa, tem boas interpretações e uma proposta intelectualmente interessante.
Mas é uma obra que interpreta Belchior mais do que o revela. É uma boa ficção sobre Belchior — e justamente por isso não deve ser confundida com a história de Belchior.
Finalmente, a verdadeira história de sua vida está em nosso livro, escrito por mim e por sua irmã e amiga, Ângela Belchior: “Belchior – Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo.”

Crítica perfeita. Quiseram inventar outro Belchior.
ResponderExcluirNa verdade não tiveram contato com a família e inventaram essa história.
ResponderExcluirDisse tudo: "É como fazer um filme sobre Van Gogh sem mostrar seus quadros."
ResponderExcluirEsse Belchior eu nunca conheci. E não poderia ser de outra forma. Basta ver a base da série: a tal biografia mequetrefe do Jotabê.
ResponderExcluirUma série sensacionalista, totalmente fora de contexto do que foi Belchior.
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